Conteúdo para toda família

ZÉ VASCONCELLOS

ARTISTA  GUAXUPEANO TRANSFORMA

SUCATA EM VERDADEIRAS OBRAS DE ARTE

Quando a sensibilidade do artista é intensa, material de sucata é preciosidade em suas mãos, pois se torna em belas e magnificentes obras artísticas.

Filho de Augusto Carlos Vasconcelos e Zilda Pasqua Vasconcelos, Zé Vasconcellos nasceu na Rua Tiradentes e frequentou o Grupo Escolar Delfim Moreira e o Ginásio Dr. Benedito Leite Ribeiro. Teve cinco irmãos: Izabel, Lucila, Suzana, Carlos e Zilda Maria. A vida lhe deu também um filho, José Carlos Vasconcelos Júnior.

O mineiro que hoje reside na cidade de Campinas, veio ao mundo com um dom muito especial: fazer do metal e do aço os utensílios mais flexíveis da sua arte. E em suas mãos, a dureza desses artefatos curva-se diante dos encantos do seu raro talento como escultor. As obras são detalhadas, monumentais e perfeitamente vivas.

Sua atividade é quase que ininterrupta. Ao ouvir a gravação com suas respostas para esta entrevista, o tilintar de suas ferramentas ressoou no áudio. Com certeza, enquanto esculpia, ele respondia as questões. De fato, quando a inspiração o envolve, ele trabalha a qualquer momento e sem controle de horas. E com isso, Zé Vasconcellos tem valorizado o nome de Guaxupé como berço de grandes e expressivos artistas.

 

Sendo autoditada, como você desenvolveu a arte de esculpir em metal e em aço inoxidável?

Com a necessidade de esculpir obras de maiores dimensões, decidi aprender a soldar para assim poder esculpir com sucata de ferro, sendo minha preferência as esculturas em bronze. O aço inox veio na sequência, pois é uma material mais nobre mantendo o mesmo principio de soldagem que antes era usado no ferro (aço carbono).

 

Sua primeira escultura foi criada na infância em giz escolar. Descreva essa técnica, qual figura esculpiu e as premiações recebidas.

Sim, foi durante uma aula de religião. Eu tinha por volta de 12 anos de idade. Esculpi um rosto em um pedaço de giz escolar. Tirei uma lamina do apontador e fiz a escultura. Tenho a escultura em meu atelier no acervo.  Conquistei prêmios com a técnica em giz: Terceiro lugar no salão de arte de Arceburgo e segundo lugar no primeiro salão de arte contemporânea do São Paulo Futebol Clube.

 

Do giz escolar ao metal e ao aço resistentes, você utilizou outros meios como, por exemplo, modelagens em argila ou madeira?

Sim, eu já entalhei em madeira, uma escultura em pedra sabão e várias esculturas em argila em Campinas onde comecei a usar a técnica aos 19 anos. Também esculpi em argila em Paris.

 

Formatar e personificar o metal e o aço inoxidável não parece ser uma tarefa fácil. Como é traçada a imagem anterior ao trabalho de modelagem e como você torna o material flexível para que sejam feitos os contornos de uma escultura?

Na fase anterior ao desenvolvimento de um trabalho com metais e aço, parto de um esboço ou foto para as esculturas. A ação de transmitir movimento e o material parecer flexível para esculpir é uma técnica que desenvolvo desde 2004. Não fiz curso nem tive contato com outro artista, pois aperfeiçoei o método sozinho e talvez um dia o propague através de cursos, pode ser.

 

Além de microesculturas, você esculpe peças monumentais. A que se deve essa motivação em elaborar obras tão imponentes? Seria para despertar mais a atenção do público ou há uma necessidade natural como artista em estampar figuras em tamanhos naturais?

Todo artista quer ser visto pelas suas obras e no giz isso ficava cada vez mais difícil, pois o giz escolar tem um tamanho predeterminado. Na argila tem a possibilidade de variação de tamanho, mas optei pela reciclagem em ferro e aço inox, visto que são materiais e técnicas que poucos trabalham no mundo, dando assim mais destaque dentre outros materiais e ajudando a difundir uma arte sustentável.

         

 

Observa-se que seu trabalho é consideravelmente eclético. Quais são os tópicos que mais o atraem para compor suas reproduções?

Hoje meu trabalho é mais conhecido pelas esculturas de cavalos e suas determinadas raças, mas sinto-me feliz quando faço arte contemporânea. Isso me dá uma sensação de liberdade de criação inigualável.

“Criar é nunca se sentir satisfeito”.  Você concorda com esta afirmativa? E quantas horas ao dia são dedicadas ao trabalho ou você não controla o tempo deixando-o fluir por conta da inspiração?

Sim, isso é fato, pois quase sempre não me sinto totalmente satisfeito com o resultado final do meu trabalho. Quanto à jornada de trabalho diário, não tenho horário definido e acabo trabalhando 12 horas ou mais quando estou inspirado e com as ideias fluindo. De preferência gosto de trabalhar durante a noite enquanto o cansaço físico não ganhar da mente.

 

 Uma de suas preocupações é a de aplicar a sua arte em favor da preservação da natureza. Para isso vem utilizando material de sucata. Com essa consciência ecológica você acredita estar servindo de exemplo para aqueles que apreciam suas esculturas?

Certamente que sim, principalmente crianças que, olhando as esculturas, veem restos de materiais como: moedas, molas, parafusos, entre outros. Elas passam a distinguir tais objetos de outros que também são descartados. Assim, têm uma nova visão do que realmente é ou não lixo.

 

Suas obras utilizadas em cenários da Rede Globo foram selecionadas por você ou pela própria emissora? E quais foram elas, além do orelhão Big Fone do BBB que tanto chamou a atenção do público?

Tive convite para algumas novelas, mas nem sempre tinha tempo hábil ou outros motivos. Na novela A REGRA DO JOGO eles cogitaram uma onça no cenário e eu tive tempo para confecção.

 

A mídia, portanto, tem reconhecido o seu valor como artista plástico. Sua participação em programas de entrevistas ajudou a popularizar suas esculturas?

Ajuda até hoje, não em vendas, mas como experiência que poucas pessoas tiveram. Normalmente são artistas já conhecidos convidados e eu estou entre poucos que tiveram esta honra e me orgulho por ter sido chamado e vivido esta experiência. Programas como ‘Programa do Jô’ e ‘Fátima Bernardes’, fui convidado pela singularidade do meu trabalho criando assunto para a matéria desejada.

 

 Você viveu algum tempo na França. Em que lhe favoreceu em termos de conhecimento e desenvolvimento artístico?

Pode-se dizer que minha mente se fundiu com Paris. Não poderia explicar com poucas palavras, mas houve situações e fatos que me fizeram perceber sobre o que eu precisava para minha vida.

 

Entre tantos trabalhos de destaque, há uma escultura representando São Jorge que impressiona pela riqueza de detalhes, expressão e realismo. Dizem que, certa vez, o ator escocês Gerard Butler o abordou na praia do Leblon em função desta peça. Como foi exatamente que aconteceu?

Sim, foi durante uma viagem que fiz ao Rio de Janeiro. Ando sempre com uma escultura na caçamba da caminhonete e neste dia transportava justamente a escultura de São Jorge.

Ao passar pelo Leblon, uma pessoa me parou na rua e imediatamente subiu na escultura posando para fotos. Não costumo permitir que isso aconteça. Porém, ao perceber que se tratava de Gerard Butler, consenti que ele continuasse e, logo após, conversamos, tiramos foto juntos e ele pegou meu folder. Gostei muito do sucedido, pois se trata de um ator acostumado a ver muitas obras de arte e soube dar valor a minha peça.

E esta mesma escultura, São Jorge montado em um cavalo, foi recentemente vendida. Em termos de realização como escultor, foi um bom acontecimento?

Sim, foi muito bom vender a peça do São Jorge que foi um diferencial em minha carreira por ter sido uma obra bem elaborada.

 

O fato de você transportar as esculturas na caçamba da caminhonete tornou-se uma boa estratégia de exposição de sua arte. Como foi que isso começou?

Quando voltei da França e comecei a esculpir em metal, a minha intenção era a de expor meu trabalho no carro. Foi quando escrevi a frase na frente do automóvel ‘A arte vai onde o povo está’.  Comecei, então, a circular pelas ruas de Campinas, sempre carregando alguma peça. E foi em um desses giros, quando estacionei o carro próximo ao Centro de Convivência de Campinas que uma diretora de hipismo se aproximou e me convidou a fazer uma exposição na hípica da cidade. Foi, portanto, o meu primeiro contato com exposições. E desde essa época transporto obras no meu veículo que é uma forma de eu divulgar o meu trabalho e continuar levando a arte ao povo. Percebo que as pessoas param, olham, comentam e demonstram gostar da minha iniciativa em rodar pelas ruas com as esculturas.  Embora eu já tenha feito alguns negócios por meio deste procedimento, o intento maior é mesmo o de divulgar o meu trabalho. Já que não frequento muitas galerias, a minha galeria tornou-se o meu carro.

 

No exterior, sua arte também está se alastrando. Em quais países seu trabalho vem ocupando espaço em exposições?

As exposições que fiz no exterior foram durante eventos não relacionados à arte. Nos Estados Unidos e no Uruguai, por exemplo, participei de galerias ligadas a cavalos.  Na Alemanha fiz duas exposições também em eventos: uma concernente ao metal e a outra no Equitana, a maior feira equestre do mundo que acontece a cada dois anos na cidade de Essen, onde se reúnem cerca de 200 mil visitantes amantes de cavalos.  Apesar de essas exposições terem sido muito importantes para meu trabalho, planejo me engajar mais em exposições em espaços de arte. Portanto, ainda este ano ou no próximo, eu comece a expor e a dar mais ênfase a este mercado de galerias artísticas no exterior.

 

Quais exposições já foram realizadas e quais estão sendo planejadas?

Não posso considerar as minhas viagens para eventos como exposições. Classifico exposições alguns trabalhos que fiz no início da carreira: Em Campinas, no Salão de Arte Contemporânea com trabalhos em giz e argila; em São Paulo, no Salão de Arte Contemporânea do São Paulo Futebol Clube recebendo medalha de prata com peças de giz; em Arceburgo quando recebi medalha de bronze. Na França, em uma pequena galeria, participei de uma exposição coletiva.

De fato, nunca fui um artista muito atuante em galerias. Mas como disse na questão anterior, a partir do ano que vem irei dar mais valor às galerias e irei procurar espaços de exposição de artes em países como: França, Itália e Estados Unidos.

 

A quais projetos você tem se dedicado recentemente?

Tenho corrido atrás de projetos de prefeituras, o que nunca foi o meu forte uma vez que minhas obras encontram-se mais espalhadas em propriedades particulares. Isso porque, os temas que tenho esculpido estão ligados a cavalos. Portanto, uma correlação forte com fazendas e haras.  Tenho obras retratando cavalos expostas em Guaxupé, Entre Rios, MG (próximo a Belo Horizonte) onde se encontra um cavalo com o dobro do tamanho natural na entrada da cidade, entre outras que foram expostas em locais públicos sem serem negociadas. Espero que em Guaxupé, muito em breve, seja exposta outra obra minha. Venho desenvolvendo um projeto para que isso se concretize.

 

Referente ao portão que você esculpiu para sua chácara em Guaxupé, quanto tempo foi necessário para moldar e soldar todas as peças? E, também, em que você se baseou para determinar o design e o estilo desta obra?

Este portão foi elaborado em um espaço de tempo de dois a três meses como um resumo da minha visão do mundo. Se for bem observado, será possível detectar que é o meu olhar sobre a terra. A obra foi baseada em meu desejo de escrever um livro e, antes de começar a compor esse livro, antecipei-o na criação do portão com o mesmo teor. Portanto, pode-se dizer que o portão é um livro escrito em forma de arte. No contexto, encontram-se muitas mensagens ligadas a energias, à história da minha vida com minha passagem por Paris, a minha atividade com próteses dentárias e ao meu contato com o motociclismo. Configurei, também, troncos e raízes que são particularidades que fundamentam o meu trabalho. Em minhas obras, as raízes são elementos por onde circulam energias canalizadas para as pessoas, para os objetos e por todos os lados. Substancialmente, é a troca entre a energia da terra com a energia do espaço.

Importante salientar que este trabalho não partiu de um projeto antecipado. Simplesmente fiz um desenho e permiti que as idéias fluíssem durante a criação.  Este portão, enfim, é o meu livro em forma de escultura.

 

Seu atelier está localizado em Campinas, cidade onde reside. Pelo tamanho de suas esculturas avalia-se que o espaço seja bastante amplo. Em fases de numerosas criações, é neste mesmo lugar que você aloja suas obras ou há necessidade de outros locais para abrigá-las?

Sim, eu enfrento problemas com relação a espaço, mas até o momento estou conseguindo contornar. Foi-me cedido um espaço em um haras para colocar esculturas. E agora, com minha chácara em Guaxupé, talvez eu leve algumas peças.  Nesta fase, estou criando cinco obras por encomendas e, aos poucos, elas vão sendo entregues e acaba sobrando mais espaço uma vez que não tenho incluído novos trabalhos por pedidos. Portanto, tanto as antigas quanto as novas estão indo para compradores. Em breve, estarei aumentando o atelier para abrigar peças de negociações e poder usar mais a minha criatividade em trabalhos que não sejam realizados por encomendas. Com um espaço mais livre, irei me dedicar às obras que tenham a ver com o meu momento. Tais peças serão feitas com o intuito de levá-las às futuras exposições.

 

Suas obras, apesar de serem criadas com material pesado, refletem leveza, movimento e surpreendem pela riqueza de detalhes. Como exemplo: os cavalos, dão a impressão de estarem caminhando, galopando ou empinando. Toda intensidade de vida que você consegue transferir para suas figuras tem relação com sua entrega à própria existência?

Bem, se eu gosto de esculturas penso que elas não devem ser cansativas. Quando olhamos para esculturas, algumas nos agradam e outras nos parecem muito estáticas e duras. E desde que comecei a esculpir cavalos, procuro desenvolver figuras com sentido de movimento para que não se tornem tediosas.

Desde a primeira solda que fiz em minha vida, um cavalo empinando, venho procurando aperfeiçoar a noção de movimento como, por exemplo, cavalo galopando, gestos humanos autênticos, roupas em ondulação. Enfim, sempre procurando chegar o mais próximo possível da realidade. Uma figura humana, como um cavaleiro, que esteja com os braços endurecidos e o corpo em uma posição não natural, o trabalho perde o conceito de mobilidade. E todo o conjunto de uma obra precisa transmitir uma mensagem de flexibilidade. Exemplificando: Não basta apenas o cavalo estar galopando, pois é preciso que o cavaleiro também esteja em movimento real com a perfeita noção de inclinação da coluna, abertura e fechamento de pernas, posição do pescoço, etc. Quando se erra um único detalhe, toda a escultura perde a sua dinâmica.

Portanto, eu digo que uma das características mais importante de uma escultura é o fato de o artista saber preservar a proporção e o movimento. Porém, quando se trata de uma escultura no estilo abstrato ou contemporâneo, por exemplo, já não existe o compromisso com as formas anatômicas como quando configuro pessoas e animais dando-lhes aspectos bem naturais. É partindo deste preceito que consigo, então, montar minhas obras em ação sem inventar circunstâncias, mas recriando situações reais.

         

Você também é responsável pela criação de troféus. Fale um pouco sobre o que é o Troféu Fidelidade e sobre a homenagem que você recebeu pela sua caracterização.

Quanto ao Troféu Fidelidade, trata-se de uma premiação em Brasília às cooperativas do SICOOB (Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil). Fui procurado no ano passado por um designer de Brasília que projetou o troféu, mas enfrentava dificuldades em encontrar quem o executasse em metal, uma vez que se tratava de um esboço cheio de dobras e contornos. Eram, portanto, detalhes minuciosos que fizeram com que muitos artistas não quisessem assumir a confecção da peça. E eu aceitei a proposta, pois quanto mais desafiador o trabalho, mais me estimula a desenvolvê-lo.

Assim, enviaram-me o projeto com dobras em cartolina. E com tentativas e experimentos, estudei as formas de dar o sentido imaginado pelo designer e o meu trabalho em metal deu o resultado esperado para esta primeira edição com 36 contemplados. E o troféu foi adotado para este ano também com 69 premiações, ou seja, quase o dobro do ano anterior.

Foi um grande prazer poder realizar este trabalho, não que tenha sido simples para mim apesar de não defini-lo como uma ação de extrema dificuldade, mas conclui algo que ninguém mais se atreveu a executar.

Uma vez que o objetivo foi atingido e contentado a todos, fui homenageado justamente pela dificuldade que foi de encontrar quem pudesse confeccionar uma obra com dobras em metal sendo que nem os serralheiros conseguem efetuar, pois trabalham somente com cortes retos traçados por esquadros. E quanto aos artistas, poucos se sujeitam até mesmo a testar um projeto desta natureza.

Com isso, vi meu trabalho sendo reconhecido e para mim foi bem gratificante. Realmente gostei da homenagem e me sinto muito grato.

CONSULTORIA:

www.zevasconcellos.com.br

 

 

 

© EDITORA MÍDIA LTDA | Av. Conde Ribeiro do Valle, 255 | 2º Andar | Sala 8

Telefone: (35) 3551-2040 | Cep 37800-000 |  Guaxupé | MG

INSTAGRAM

Curta esta página no Facebook

Poste no seu Twitter