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Rosângela Felippe, entrevista

ROMEU ABILIO:

O JUIZ, PROFESSOR E ESCRITOR GUAXUPEANO QUE LUTA PELA PRESERVAÇÃO DA HISTÓRIA DE GUAXUPÉ E REGIÃO

Nascido na Rua José Maria, Romeu Abilio, assim como tantos guaxupeanos de sua geração, chegou ao mundo pelas mãos da parteira Vó Brandina que, na época, era muito solicitada na cidade pelas famílias das parturientes.

Filho de Anisio Abilio e Alzira Gabriel Pereira, o casal teve outros oito filhos: Leila, Julieta, Maria, Jorgina, Neifa, Aparecida, Alberto e Ana Maria.  Estudioso e extremamente aplicado em sua carreira de juiz de Direito, Romeu Abilio casou-se com a também dedicada Rosemary Costhek Abílio, formada em Letras pela USP e tradutora de francês. Desta união nasceram:

- Vanessa Costhek Abílio, biomédica formada pela Universidade Federal de São Paulo, mestre, doutora, pós-doc, pesquisadora e professora, chefe da disciplina farmacologia no Departamento de Farmacologia dessa Universidade (departamento fundado pelo guaxupeano doutor Juquita).

- Ludmila Costhek Abílio, socióloga formada pela USP, mestre, doutora e pós-doc, ex-professora da PUC de Campinas, pesquisadora do Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho), do Instituto de Economia da Unicamp.

Romeu morou em Guaxupé até o ano de 1967, quando terminou o Tiro de Guerra e mudou-se para São Paulo para acompanhar a família em busca de trabalho e maiores oportunidades.  Na terra natal, além de estudante, foi também encadernador.

Com um brilhante currículo na carreira de Direito, Romeu Abilio é exemplo de amor às origens, à cultura e às tradições em que foi criado. Hoje, juiz aposentado, professor e escritor, o guaxupeano dedica-se ativamente às pesquisas sobre a história dos imigrantes árabes na região sul-mineira tendo lançado dois livros sobre o tema: ‘Lembranças Minurcas’ e ‘Ibrahim Hanna e Excêntricos Sírio-Libaneses no Sul de Minas’ (recém-lançado em São Paulo e Guaxupé).

 

Em Guaxupé, você cursou durante seis anos o Seminário Diocesano São José. Havia algum plano em tornar-se padre ao matricular-se nesta escola ou o Direito já era sua escolha?

Cursei o ginasial e o clássico no Seminário São José, da Diocese de Guaxupé. Como todas as famílias pobres, naquele tempo os caminhos para ascensão social eram ser padre, militar ou bancário. Eu era muito religioso, fui batizado na Igreja Ortodoxa da rua Aparecida e estava impregnado daquela mística oriental. Acredito que tinha vocação, mas as circunstâncias da vida e um certo enfraquecimento da fé levaram-me a sair do seminário. Devido à formação humanística que recebiam, aqueles que eram ex-seminaristas geralmente acabavam optando por Direito, Letras, História ou Filosofia.

 

Sendo graduado em História e Direito pela USP e mestre em Direito pela PUC-SP, qual a relação entre História e Direito em sua vida?

Cursei História e Direito na USP. O conhecimento histórico me ajudou a entender melhor o Direito, principalmente o ramo Direito Constitucional. Na realidade, o trabalho do juiz assemelha-se ao do historiador: dos fatos nascem o direito e quem os desconhece não tem elementos para julgar. Tanto juiz como historiador buscam a reconstituição e o entendimento dos fatos.

 

Você é juiz de Direito aposentado e, desde 1994, leciona Direito no UNIFIEO (Centro Universitário Fieo), em Osasco (SP). Qual foi a maior lição que a vida lhe deu como juiz ao sentir-se no dever de determinar condenações?

Aposentei-me como juiz no ano de 1999. Nunca parei de lecionar, tendo trabalhado em vários Centros Universitários: UNIFIEO em Osasco, UNIP em Barueri, FMU em São Paulo, Fundação Valeparaibana em São José dos Campos e Associação Prudentina em Presidente Prudente. A maior lição de vida proveniente do trabalho de julgar, de condenar ou absolver o semelhante, é a da humildade e do constante receio de errar em face de um sistema confuso, kafkaniano (termo baseado no escritor tcheco Franz Kafka classificando uma situação desesperadora, claustrofóbica e traumática, a qual não se visualiza uma possível solução ao final) e que reflete as desigualdades sociais.

 

Como bom historiador, você se tornou um escritor reconhecido com duas obras voltadas ao Direito. Porém, Guaxupé o inspirou a pesquisar e a escrever dois livros sobre a vida dos imigrantes sírio-libaneses e seus descendentes. Conte-nos sobre este trabalho.

Escrevi dois livros jurídicos: Noções de Constitucionalismo e Manual Básico de Processo Penal, este na 2ª edição. Livros sem os rebuscamentos das obras jurídicas, com a simples preocupação didática.

Sempre me perturbou, por ser descendente direto, ver passar em branco a existência da grande comunidade sírio-libanesa de Guaxupé. Quase quatrocentos famílias no sul de Minas, uma igreja ortodoxa (segundo alguns a primeira no Brasil) com a vinda de um padre diretamente do Líbano para Guaxupé, a expressividade desses imigrantes  na cultura guaxupeana, no comércio, nas letras, no direito, nas várias profissões que mantêm uma cidade. Então escrevi dois livros. O primeiro, Lembranças Minurcas: histórias de sírio-libaneses-mineiros-guaxupeanos, parte de fatos verdadeiros, é focado em história oral, fruto de minhas pesquisas, fruto do que observava desde criança no seio de minha família e da comunidade guaxupeana. Como esse primeiro livro agradou parentes, amigos, patrícios e conterrâneos mineiros, senti-me incentivado a escrever mais um.

O segundo livro, Ibrahim Hanna e Excêntricos Sírio-Libaneses no Sul de Minas, embora mais de história ficcional, retoma o tema do anterior. Ouvi histórias dos patrícios e dos guaxupeanos em geral, recebi informações de estudiosos e de pessoas muito interessadas; então organizei e dei asas à imaginação. No fundo, o que pretendi com esses dois livros foi não deixar perderem-se no tempo a presença e a vida de nossos antepassados sírio-libaneses. A frase inicial e final desse segundo livro indica o objetivo principal: "O homem morre duas vezes: quando cessam suas funções vitais e quando ninguém mais fala seu nome."

 

Qual a origem do título do primeiro livro ‘Lembranças Minurcas’?

Nos dois livros, vira e mexe, aparece o termo ‘minurco’. Trata-se de um neologismo que engloba as palavras ‘mineiro’ e ‘turco’. Os imigrantes sírio-libaneses, por serem súditos do Império Otomano (turco), chegavam com passaportes que os classificavam como turcos. E no Brasil, de forma pejorativa, humilhante, eram chamados com desprezo de turcos. De forma carinhosa foram juntadas as palavras turco + mineiro; e de fato, observando o modo de vida desses imigrantes, pode-se constatar que conservaram parte da cultura árabe e se impregnaram da cultura mineira.

 

Ibrahim Hanna, da obra ‘Ibrahim Hanna e Excêntricos Sírio-Libaneses no Sul de Minas’, é um personagem fictício. Ele foi inspirado em alguém que você tenha conhecido ou simplesmente nasceu de sua imaginação? Indo mais além, seria ele o seu alter ego?

Ibrahim Hanna, em português Abrão João, é personagem fictício, fruto de pura imaginação. Gostei da sonoridade do nome, e nome por sinal bem comum. Não havia me ocorrido a hipótese de ser esse personagem meu alter ego. Nem tudo que ele fala é o que penso; mas gostaria de ser um alquimista com os poderes dele e viajar num tacho mágico por todos os quadrantes da Terra.

Com a formação destes dois livros voltados à colônia sírio-libanesa em Guaxupé, despertou-lhe o interesse em aprender o idioma árabe. Haveria interesse em viajar para a cidade natal de seus antepassados, Baino (norte do Líbano), para tentar resgatar fatos históricos sobre os imigrantes que se alojaram em nossa cidade? Afinal, sabe-se que foi de Baino que veio a maioria dos sírio-libaneses para Guaxupé.

De fato a maioria dos sírio-libaneses de Guaxupé vieram do Baino (província Akkar, norte do Líbano). Um dado interessante: muitos dos provenientes do Baino eram alfabetizados e artesãos e acabaram por se destacar econômica e culturalmente. Muitos de outras aldeias, como meu pai (de Tell Abbas), eram analfabetos e simples agricultores. Estes diziam de forma pejorativa que os patrícios nascidos no Baino eram jahche (burros).

Sempre tive vontade de conhecer as aldeias (hoje cidades) de onde vieram meu pai (Tell Abbas) e a família de minha mãe (Baino), para buscar minhas origens, entender o que aconteceu com eles e procurar parentes. Tentei várias vezes aprender o árabe, mas por não ser metódico e não ter facilidade para línguas não logrei êxito. Lá se fala também o francês, mas o pouco que sei só dá para leitura. Quanto ao inglês, também fiz várias tentativas sem êxito. E agora, idoso nos termos da lei e meio surdo, tudo ficou mais difícil, mas alguma coisa dentro de mim me diz que não morrerei sem conhecer a terra de meus antepassados.

 

É fato que, na época da imigração, em Baino ninguém dizia que viria para o Brasil, mas sim para Guaxupé?

Sim, é o que diziam, e quando aprenderam o ‘minerês’ brincavam ao fazer a seguinte tradução: nois bai bra Gachubé e não nois bai bra Brozile. Fala-se que quase quatrocentas famílias de sírio-libaneses se aglutinaram em Guaxupé e cidades próximas. Depois que iniciei esses estudos, vira e mexe ouvi de patrícios de São Paulo, Triângulo Mineiro e Goiás que eles tinham parentes em Guaxupé, onde começaram suas famílias. Aquele momento histórico (fim do século XIX e início do XX) caracterizado pela dissolução do Império Otomano coincidiu com a expansão ferroviária e cafeeira no sul de Minas, o que atraiu estes e outros imigrantes.

 

Porém, muito tempo se passou desde que os imigrantes árabes chegaram a Guaxupé. Seria possível que em Baino ainda existam pessoas que possam relatar fatos históricos dessa fase de imigração?

Perdemos muito tempo em não registrar a história de nossos pais e avós enquanto vivos como em não manter contato com os parentes que lá permaneceram. Mas acredito que no presente ainda possa encontrar lá parentes e pessoas que, pela história oral e talvez documental, saibam de muita coisa. E o árabe, por ser muito emotivo e afetivo, se souber que tem um primo do primo aqui no Brasil, vai considerá-lo parente e cultivará essa relação.

 

Segundo se sabe, além dos imigrantes árabes, muitos italianos atravessaram o oceano e se instalaram em Guaxupé. A lista de sobrenomes é bem extensa. Você estaria planejando traçar, também, a história dessas famílias?

Assim como me perturbava a ideia de não deixar passar em branco a ativa e numerosa comunidade sírio-libanesa-mineira, da qual faço parte, sempre me chamou atenção ninguém da grande comunidade italiana existente em Guaxupé, maior inclusive que a sírio-libanesa, ter registrado sua história. Gostaria de contribuir para que algum trabalho fosse feito nesse sentido. É interessante lembrar que são inúmeros os casamentos de descendentes de sírio-libaneses-guaxupeanos com descendentes de italianos-guaxupeanos, benéfica junção de dois povos mediterrâneos, de duas culturas riquíssimas.

 

Além dos sírio-libaneses e italianos, quais outras nacionalidades você considera que ocupam um espaço significativo na história de Guaxupé?

As nacionalidades de maior expressão em Guaxupé são a italiana e a sírio-libanesa, e em menor número espanhóis e portugueses. Há também um número expressivo de afrodescendentes.

Para você escrever as próximas obras abordando a vida de outros imigrantes e descendentes, deverá contar com a colaboração dos moradores da cidade e possíveis registros em edições antigas dos jornais locais, além de outras fontes mais. Isso já está sendo providenciado? Tenho recebido sugestões para pesquisar e escrever sobre a imigração em geral em Guaxupé, seu futebol e o café. Futuramente, se houver interesse, penso em manter contato com pessoas ligadas a esses assuntos, talvez dividir o trabalho e com vários coautores para escrevermos um livro. Talvez fosse necessário trocar idéias com o reitor do UNIFEG (Reginaldo Arthus), com o prefeito Jarbinhas, com a Associação Atlética e com a COOXUPÉ. Os historiadores Wilson Ferraz, Renato Veroneze, Jair Hermínio, os jornalistas e tantos outros poderiam nos ajudar. Espero que os arquivos do jornal Folha do Povo estejam preservados.

 

Umas das características mais curiosas que você sempre observou é o fato de que, em geral, os sírio-libaneses em Guaxupé eram mais conhecidos por apelidos. Como você analisa essa questão?

Embora Guaxupé seja uma cidade cosmopolita, mais aberta que muitas cidades sul-mineiras, existia um pouco de segregação racial contra o ‘turco’, o ‘mascate’, o ‘estrangeiro’. Para ser mais aceito, substituía-se o nome árabe difícil por um apelido mais afetivo ou mesmo debochado. Conto nesse segundo livro casos reais em que se registrava a criança com nome brasileiro (José, Alfredo etc.) para não sofrerem humilhação na escola primária e mais tarde retificavam com nome árabe (Fuad, Elias, Sara, etc).

 

Em Guaxupé, foram poucos, talvez, os imigrantes árabes que ensinaram aos filhos o idioma de seu país de origem. De acordo com o seu ponto de vista, qual seria a razão de não procurarem perpetuar por meio de seus descendentes a língua árabe?

No início da imigração, existiram várias escolas de ensino da língua árabe, todas localizadas na praça do Rosário, mas duraram pouco tempo. Eu pensava que nossos pais não ensinavam sua língua para os filhos por ignorância; mas, verificando que isso ocorria também com outros povos, concluí que pretendiam que seus filhos fossem aceitos e se integrassem de forma definitiva, que não chamassem atenção, que não sofressem discriminação. Para contribuir para salvar essa rica cultura da qual você e eu fazemos parte venho brincando com o neologismo ‘minurco’ (mineiro+turco).

 

Deveria ocorrer em Guaxupé eventos com tradições árabes para que não se perca no tempo a história de um povo que tanto ajudou o progresso da cidade? E quais acontecimentos você sugere?

Sugiro a reabertura da igreja ortodoxa não só para eventos religiosos, mas também para encontros e congraçamento; criação de um pequeno museu da imigração, festas, curso de árabe e de dança árabe. O museu poderia ser criado com a participação dos descendentes fornecendo fotos e dados específicos de cada família. Existem iniciativas que poderiam ser imitadas, como por exemplo, a da família Miqueri (da qual faz parte o escritor Cairbar), que se reúne quase todos os anos em Guaxupé, vindo seus integrantes de vários pontos do Brasil.

 

Preservar a história da terra natal tornou-se um dever em sua vida?

Vamos ficando mais velhos e saudosistas e queremos buscar nossas origens. A terra em que nascemos, sua história, a vida dos amigos e parentes, o sofrimento, as alegrias e a luta de nossos pais, nossa própria luta, tudo isso nos leva a uma lembrança e reflexão constantes. Preservar a história da terra natal, antes de ser um dever, é um prazer, uma necessidade, um ato de amor.

 

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