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Rosângela Felippe, entrevista

HENRY VITOR SANTOS

O GUAXUPEANO QUE NARRA HISTÓRIAS COM TINTAS E PINCÉIS PRESTARÁ HOMENAGEM AO ESCRITOR EUCLIDES DA CUNHA COM EXPOSIÇÃO DE QUADROS NA CIDADE DE PARATY

 

Sua maior inspiração como pintor é a terra natal. Em seus quadros, Henry Vitor retoca o passado da cidade em telas coloridas onde o universo mineiro e os personagens movimentam-se leves e comprometidos com a própria história do artista.

Para ele não há pausa. O guaxupeano respira oxigênio mesclado com a fragrância das tintas o tempo todo. Pintar para ele é mais do que religião. É a própria fé estampada em figuras folclóricas, nas rotinas das antigas fazendas, nos cafezais que agraciam a natureza, nas árvores demasiadamente floridas e nas crenças centenárias de sua gente. Enfim, é o espaço sobre a terra que Henry eterniza nas telas enfeitiçadas pela saudade.

Conheci esse conterrâneo, diriam os incrédulos, por um mero acaso. Mas dirá o destino: foi uma revelação da minha boa sorte. Em meados dos anos 90, travei boa amizade com uma senhora em São Paulo cujo nome era Janice. Certa tarde, Janice me convidou a ir até sua casa tomar um café, na Rua Cardeal Arco, bairro de Pinheiros. Durante a visita, ela me apresentou seu marido, Henry Vitor.  Estava eu, sem saber, diante de um dos pintores mais talentosos deste país e que, também, era meu conterrâneo. Após descobrirmos que havíamos nascido na mesma cidade, observei e encantei-me com seus quadros nas paredes revelando meu desejo de aprender a pintar. Prontamente, ele se ofereceu para me ajudar, deu-me dicas de onde comprar boas tintas e convidou-me para acompanhar seu trabalho para que eu pudesse ter as primeiras noções de como usar o pincel. Infelizmente, consumida pela minha profissão, deixei escapar essa magnífica oportunidade. Tão logo, Janice faleceu e perdi o contato com Henry. Anos depois, por meio de uma página do facebook voltada a Guaxupé, reencontrei-o e retomamos uma amizade interrompida no passado.   Penso que, como jornalista, estava fadada a entrevistá-lo e não a aprender a pintar com ele, pois esta é a segunda vez que tenho a alegria de fazer uma matéria com o artista que se tornou um dos meus favoritos.

Nesta entrevista, Henry revela ser pintor autodidata, além de ter estudado jornalismo, propaganda e marketing.  Deixa transparecer, também, a felicidade que sentiu ao ter sido convidado a pintar 10 quadros representando episódios do livro ‘Os Sertões’, em uma homenagem a Euclides da Cunha, na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) a ser realizada a partir do dia 6 de julho.

 

Como e quando surgiu o pintor?  Nasci em Guaxupé em 1939. Sai da cidade com 8/9 anos, vindo para São Paulo e aqui fiquei. Só depois de adulto é que pude me dedicar às artes. Eu não tive apoio e nem incentivo para atuar nesta área de artes plásticas. Ao contrário. Mas com 17 anos, quando já tinha dinheiro, proveniente do meu salário, comprei telas, tintas, livros e nunca mais parei de trabalhar na área como pintor.

 

Como autodidata, com qual estilo de pintura você se iniciou?

No começo fazia o que todo mundo faz. Pintava flores, paisagens, coisas muito simples. Aí tomei gosto. Seria necessário buscar uma linguagem própria. Em um processo de análise descobri que eu deveria buscar as coisas simples, deveria voltar às origens, porque através da simplicidade, consigo dar o meu recado, contar a minha história. E assim fiz. Sendo um pintor autodidata, não tive regras nem parâmetros. E, sem querer, intuitivamente fui pintando o que me dava prazer. As galerias e o mercado de arte me descobriram e me intitularam como um pintor naif (expressão oriunda do francês que significa  ‘arte ingênua’, ou seja, artista que não se enquadra nos moldes acadêmicos, nem nas tendências modernistas, nem tampouco no conceito de arte popular). Mas penso que sou mais do que isso. Pois o naif, tecnicamente falando, tem traços mais soltos, pincelas muitas vezes rudes, etc.

 Qual é a lembrança mais forte de sua infância em Guaxupé?

Acho que a lembrança do meu avô, Luiz Puntel, é muito forte. A meu ver, ele está muito esquecido na cidade. Em Guaxupé, ainda permanecem de pé inúmeras casas que ele levantou como prova do seu valor. Para mim, não adianta ele ser nome de rua, por sinal, uma ruazinha sem expressão umas vez que ninguém sabe quem foi ele. O seu irmão, tio Fite, que construiu o Palácio das Aguias, é mais lembrado do que ele. Que pena. O casarão dele, na Rua Barão de Guaxupé, foi demolido. Até hoje não entendi o porquê.

 

E quais episódios vividos na cidade você gosta de relembrar?

Ainda hoje sinto o perfume dos jardins, das flores que povoam hoje meus quadros. Lembro-me dos enormes pés de manga, da vagonete onde os moleques da minha rua apostavam corrida. Lembro-me do grupo escolar. Do circo que ficava onde hoje é a Câmara dos Vereadores. Do colégio das freiras onde fiz minha primeira comunhão. As saudades e as lembranças são tantas. No Natal não se usava dar presentes. As pessoas trocavam tortas por compotas, frango assado por tigelas de frutas. Eita tempo bom!

 

E o jornalismo em sua vida?

Na época em que comecei a me desenvolver como pintor, eu já estudava jornalismo. Posteriormente, eu me formei em propaganda e marketing e, finalmente, comunicações. A minha formação intelectual levou-me a executar obras contemporâneas, inclusive algumas conceituais participando em salões oficiais ligados à cultura. No entanto, logo descobri que o meu caminho seria outro. Trabalhava em um banco, em meio expediente. O resto do meu dia era dedicado à pintura.

 

Descreva, então, a sua trajetória como pintor.

Em 50 e poucos anos de trabalho, tenho participado de inúmeras exposições, não só no Brasil, como também no exterior. Reconheço que já fiz muita coisa.

Além das exposições, pintei também grandes painéis, para o antigo Banco do Estado de São Paulo, hoje Santander, Agência Voluntários da Pátria, em Santana, e Agência Pamplona, no Jardim Paulista, SP. Esses painéis contavam a história do bairro em questão, desde a sua origem até os tempos atuais. Pintei também painéis para uma indústria de perfumes, a Himer & Reimer, para o Boticário, Agroceres, etc. Ilustrei vários livres didáticos, capas de CD’s  e uma infinidade de cartões de Natal para a AACD, Unicef, entre tantos outros.

Fui também um gravador. Além da pintura, fiz muitas litogravuras, ou seja, obras de arte criadas e desenhadas em pedras especiais e depois impressas, possibilitando cópias da mesma imagem. Mas a pintura, a cor, a pincelada, o trabalho delicado e cuidadoso, o encantamento da criação única e exclusiva, sempre superou outras possibilidades de expressão.

 

Quais foram as exposições mais importantes das quais  participou?

Através da Galeria Jacques Ardies e da Galeria Jean Jacques, realizei inúmeras exposições em muitas cidades como Washington e mais 44 cidades americanas, além das capitais brasileiras. Esse projeto  foi comadadado pelo grupo Partners of America. Foram muitas exposições. Meus trabalhos foram expostos na França, Espanha, Holanda, Israel e, principalmente, no Japão e China em inúmeras cidades. No Brasil, grande parte das individuais realizei em São Paulo, em Galerias de Arte, como Academus, Portal Galeria Jacques Ardies, Galeria De Arte Da Cargil, Centro Americano de Comércio, entre outros. Tenho a ressaltar a exposição da Galeria Solar do Rosário - Curitiba  e  Galeria Jean Jacques - Rio de Janeiro e as participações em mostras de Belo Horizonte, Brasília,Santa Catarina, Salvador, Natal, entre outras.

 

De que forma Guaxupé atua em sua arte como fonte de inspiração?

De uma forma até intuitiva, Guaxupé sempre esteve presente, em minha alma e no meu trabalho.

 

Em junho de 2014, em Guaxupé, há exatamente cinco anos, portanto, você realizava uma das mais lindas exposições de sua carreira.

EMOÇÕES DA VOLTA: Esse nome transmite o perfil da exposição. Mais uma vez voltei a expor em Guaxupé. Essa foi a quarta vez. A primeira foi no Clube Guaxupé, promovida pela Casa da Cultura. A segunda na Cooxupé, patrocinada pela Cargill, e a terceira, inaugurava um novo espaço de cultura em nossa cidade, o Teatro Municipal.

 

Qual o sentido desse trabalho para sua vida?

Voltei trazendo o resultado de alguns anos de distanciamento com um trabalho dedicado e cuidadoso, retratando minhas origens, e partindo delas buscando novas amplidões. Voltei buscando reencontrar sorrisos. Voltei trazendo sementes que com certeza hão de frutificar amanhã, tornando corações hoje jovens, amanhã amorosos e conscientes de que nossa terra merece atenção e cuidados. Voltei trazendo meus quadros, meus poemas, esperando que as pessoas compartilhem da mesma emoção e que se encantem com as possibilidades de acreditar que nossa cidade merece ser amada e vivenciada com entusiasmo e afeto.

 

E com esta exposição também se revelou o poeta. Junto aos quadros de ‘Emoções da Volta’, você criou um poema para Guaxupé. Vamos relembrar?

"Com pinceladas miúdas e delicadas, busco a cor dos jardins, da saudade e das distâncias. O sol entra em minha vida, passeia pela paleta e desperta as cores que ainda dormiam. Tudo vira festa, manhã de bandeirinhas, cantigas no quintal. Lá, ao longe, o sinal da Catedral, lembra que é domingo, dia de ver Deus. Quase ouço o grito das crianças correndo pelos cantos procurando a bola, a cobra, o que ficou perdido no tempo do ontem. Uma casinha de colono aqui, outra do caboclo acolá, tudo rodeado de verde e de montanhas. E aqui, ali, a gente encontra o fruto doce, a panela no fogo e a porta aberta convidando para ficar. Um dedo de prosa combina com café quentinho coado na hora. Distante, o trem apita uma saudade que dói... Em minha meninice, eu partia, mas sabia que um dia iria voltar. E volto também para ver a Casa de Deus. Quem sabe se ele me deixa ficar, por aqui, mais um pouco, pintando as emoções da volta. Você deixa meu Deus?"

 

Em julho, será realizado na cidade de Paraty, município do Rio de Janeiro, um importante evento artístico,  a ‘Festa Literária Internacional de Paraty’ (FLIP) homenageando o escritor Euclides de Cunha. A você, foi designada a missão de retratar em telas 10 episódios de sua obra ‘Os Sertões’. Como está sendo desenvolvido este trabalho?

A FLIP é uma mostra de arte e literatura que contará com a participação de 69 artistas, na ‘Galeria André Cunha’, em Paraty. Cada um deles irá retratar uma obra da Literatura Brasileira. E sendo Euclides da Cunha o homenageado do evento, diante dos meus mais de 60 anos de pintura, fui convidado a retratar o grande clássico da literatura brasileira deste notável escritor, ‘Os Sertões’.

Admito que não é um livro fácil de ler e tampouco de ser representado em telas como consegui realizar. Mas já conclui toda a coleção. Minhas obras ficarão concentradas em uma grande e única parede da galeria.   Confesso que foi difícil, pois ‘Os Sertões’ é uma obra puxada... pesada... mas gosto de extrair leite das pedras.”

Seus 80 anos chegaram cheios de cores?

Sim, e em homenagem aos meus 80 anos, as minhas atividades artísticas continuam além de Paraty. Participarei da ‘Bienal Naif de Socorro’ - SP, quando 15 de minhas obras serão expostas. Uma delas conta a história da cidade desde a sua fundação homenageando a Padroeira da cidade, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Essa exposição será realizada em agosto.

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