Conteúdo para toda família

Rosângela Felippe, entrevista

JOSÉ CARLOS

MARIANO DE SOUZA

O GUAXUPEANO QUE PRODUZ UM DOS MELHORES VINHOS DO MUNDO

 

Tudo começou pela paixão. Sim, a paixão pela bebida mais requintada da história. E esse fascínio levou José Carlos Mariano de Souza, engenheiro mecânico, aos vinhedos argentinos onde aprendeu a extrair das uvas o mágico paladar dos vinhos.

Como todo adolescente guaxupeano dos anos 60/70, José Carlos conheceu uma das épocas mais inspiradas da cidade: Os tempos de paz, descontração e de romantismo. Menino muito bem educado, conquistou bons amigos e era querido por todos que sempre o chamavam, e ainda o chamam, de Zé Carlinhos.

Embora muito tímido, não negava um cumprimento a ninguém com quem se cruzava pelas ruas.  Seu sorriso meio desajeitado, devido ao acanhamento, cativou a cidade e o tornou um guaxupeano inesquecível aos que puderam com ele conviver. Além do que, levava a vida de modo aplicado, demonstrando inteligência e sempre muito estudioso.

Filho de Sebastião Mariano de Souza, o Tião Mariano, e de Maria Bárbara de Souza, José Carlos teve quatro irmãos:  Sebastião (Lho),  Marcio​,  Fernando e Maria Rita. Hoje, ele está casado com Ângela, com quem gerou: Joana, Pedro e Luiza. Foi agraciado, também, com a neta Júlia, filha da Joana.

Habilidoso com a bola, foi integrante do time de juvenis do Flamengo como ponta-direita. Na mesma equipe em que ele jogava, estava surgindo o grande Zico. Porém, a destinação de Zé Carlinhos era a de seguir a carreira de engenheiro mecânico e regar a sua história de vida com vinhos e não com gols.

Qual o seu vínculo com Guaxupé e Nova Resende? ​Eu nasci em Guaxupé, morei os primeiros oito anos em Nova Resende e depois​ a família se mudou novamente para Guaxupé. Estudei no Grupo Escolar Delfim Moreira e Colégio  Estadual, onde cursei o Ginasial e Cientifico. Os amigos da época estão presentes até hoje, seja de fato ou na memória. Naquele tempo, Guaxupé era uma cidade muito mais tranquila e podíamos ficar conversando em segurança com os amigos sem as preocupações dos tempos modernos.

Meus amigos de infância são muitos e vou citar alguns dos quais você irá se lembrar: Fernando ​Sá (Mixirica), Marco Antonio Zerbini (Zoinho), Nicolau Tolentino, Candinha e Censo Borges, Eza Rios, Maria Eunice Leão, Leslie de Sá, Zé Henrique Lessa, Regina, Marcão e Zé Renato Almeida, etc, etc.

Como foi o início de sua carreira profissional?  Eu me formei em Engenharia Mecânica pela​ Escola de Engenharia da UFMG, em 1976. Saí de Guaxupé em 1971 para jogar futebol no Flamengo, mas desisti e fui para Belo Horizonte estudar. Meu início de carreira foi tranquilo. Após a formatura, fui trabalhar em São Paulo e, depois de dois anos, voltei para Belo Horizonte.

A sua ida para o Rio de Janeiro para jogar pelo Flamengo foi muito promissora, pois seu talento foi reconhecido pela direção do time. Por qual razão desistiu do esporte tão rapidamente? Eu comecei a jogar futebol em Guaxupé no Mirim do Antonio Greco e depois no Vila Rica e Esportiva Guaxupé. Em 1971, fui fazer um teste indicado pelo Velau, ex-jogador do Flamengo que observava jogadores pelo Brasil. ​Quem me levou para o teste foi o Zé Ácula. Fui aprovado e me mudei para a concentração dos juvenis, que ficava no bairro do Botafogo. Neste time estavam Zico, Adilio, Junior, Rondinelli e outros. Eu era ponta-direita. Mas desisti da carreira porque, na minha curta temporada de uma semana no Rio, percebi que não conseguiria estudar Engenharia, que era meu sonho também. Arrumei de novo as malas e voltei para Guaxupé.

Como os vinhos passaram a ocupar espaço em sua história? Os vinhos, como negócio, só entraram em minha vida depois de formado em engenharia, quando eu já trabalhava em Mariana (MG).

Minha relação com os vinhos começou com a paixão por eles. Minha esposa e eu começamos a provar os vinhos ​desde que nos conhecemos e, depois de muitas taças, começamos a pensar em tornar realidade um sonho de produzir um vinho próprio.

Em 2010, conhecemos um empreendimento em Valle de Uco, Mendoza, Argentina, parecido com uma cooperativa ou condomínio, onde as pessoas poderiam comprar uma terra, plantar as uvas escolhidas e produzir um vinho próprio. Assim, começou a nossa historia como produtores.  Em 2011, produzimos nosso primeiro Malbec e, a partir de 2013, temos vinhos das variedades Malbec e Syrah.

Qual é a origem do vinho Malbec? A Malbec é uma uva originária, dizem, das regiões do antigo Irâ (ou Pérsia). De lá foi para a França, principalmente na região de Cahors. Em meados de 1800, esta uva foi levada para a Argentina onde se adaptou maravilhosamente. Lá ela produz vinhos bem estruturados, de cor violeta acentuada e brilhante, aromas e sabores intensos. A produção de meus vinhos é feita numa vinícola comum a todos os proprietários que tem vinhedo no mesmo empreendimento e é controla com uma equipe composta de enólogos e técnicos especializados.

E foi, justamente, o vinho Malbec que lhe deu a medalha de prata no International Wine Challenge 2018. Fale a respeito desta premiação, que é uma das avaliações de vinhos mais respeitadas e concorridas por produtores de vinho do mundo todo.

O evento acontece anualmente em Londres. O International Wine Challenge (IWC) está agora no seu 34º ano, sendo reconhecido como a melhor e mais criteriosa competição de vinhos do mundo. É avaliado cada um dos vinhos participantes às cegas e são julgados por sua fidelidade ao estilo, região e safra. Ao longo dos rigorosos processos de julgamento, cada vinho ganhador de medalhas é provado em três ocasiões separadas por pelo menos 10 juízes diferentes. São entregues as medalhas de ouro, de prata e de bronze. Neste ano de 2018 eu fiquei com a de prata.

 

O que representa em sua vida essa premiação? Como em qualquer atividade profissional, o reconhecimento de um trabalho traz a sensação de conquista misturado com aceitação. No caso dos vinhos, uma premiação importante como esta torna o produto mais fácil de ser aceito. Somos produtores muito pequenos e é difícil tornar a marca conhecida. A premiação ajuda bastante.

 

Você também se dedica à produção do vinho Syrah, provindo de uvas cultivadas em países como a França e a Austrália. Entre o Malbec e o Syrah, há alguma diferença marcante de sabores e de apreciação por parte dos brasileiros? Cada uma das variedades tem suas características ​próprias. Em princípio, decorrentes das próprias uvas. O vinho Malbec é mais gastronômico, ou seja, ele pede mais uma comida, principalmente carnes grelhadas para acompanhá-lo. O Syrah eu considero um pouco mais versátil. Mas tudo é questão de gosto. Creio que o brasileiro prefere mais a Malbec devido ao marketing argentino para esta variedade.

 

Foi necessário frequentar algum curso de aperfeiçoamento para desenvolver a sua arte de produzir vinhos? ​Eu fiz alguns cursos para aperfeiçoamento. Mas para o plantio das uvas, manutenção e acompanhamento do vinhedo, colheita e produção dos vinhos eu tenho equipes de profissionais argentinos especializados nos assuntos. Nós acertamos o que desejamos e eles garantem que o resultado atenda o estabelecido.

 

Quem são os apreciadores dos seus vinhos? Até o momento, nosso mercado se restringe a Belo Horizonte e região. Fornecemos para restaurantes de boas referências em Belo Horizonte e Ouro Preto, bem como para consumidores finais.

 

 É possível que exista algum tipo de vinho de boa qualidade que possa ser produzido em Guaxupé de acordo com o clima da região? ​Esta é uma questão bastante complexa. Mas com dinheiro e pessoas competentes quase tudo se torna possível. Já existem produtores brasileiros conseguindo bons resultados nas regiões de Minas Gerais e São Paulo com solos similares ao de Guaxupé.

 

Quando menino e ainda morando em Guaxupé, você imaginou que  um dia seria um bem sucedido produtor de vinhos? Evidentemente que não. Meus sonhos eram fazer engenharia automobilística e jogar futebol.

 

INSTAGRAM

Curta esta página no Facebook

Poste no seu Twitter

© EDITORA MÍDIA LTDA | Av. Conde Ribeiro do Valle, 255 | 2º Andar | Sala 8

Telefone: (35) 3551-2040 | Cep 37800-000 |  Guaxupé | MG