Conteúdo para toda família

Rosângela Felippe, entrevista

A M I R    H A D D A D

“Não me espelho em ninguém.

Apenas faço o que tenho que fazer.”

Diretor, ator e dramaturgo, Amir Haddad nasceu em Guaxupé no dia 2 de julho de 1937 com missão de dedicar-se ao Teatro. Sim, Teatro com T maiúsculo como sempre faz questão de escrever como expressão de amor à dramaturgia.

Em uma sociedade onde muitos consideram o Teatro como atração de elites, Amir Haddad defende-o como arte coletiva e ressalta os espaços públicos como importantes instrumentos de inclusão social guando transformados em tablados. Dessarte, ele criou em 1980 o grupo teatral ‘Tá na Rua’, sediado na Lapa (Rio de Janeiro) e, desde então, vem dirigindo e apresentando espetáculos em praças do centro e da periferia das cidades brasileiras. Sem margens entre elenco e público, no decorrer das apresentações todos atuam como atores.  Assim, o guaxupeano desenvolveu uma estratégia genial para devolver o povo ao teatro.

Amir Haddad conquistou fama no Brasil e no exterior não somente pelo talento, mas pelo assinalado estilo com o qual já dirigiu cerca de 300 espetáculos tendo sido várias vezes premiado como melhor diretor: Prêmio Molière (duas vezes), Prêmio Shell, Prêmio Sharp, Prêmio Governador do Estado. Além de conceituado diretor artístico de obras clássicas e contemporâneas, como ator ele soma intensidade dramática, devoção, carisma e a enfática incorporação de seus personagens inerente aos apaixonados pelo Teatro.

Foi aprazível perceber que, mesmo tendo deixado Guaxupé com pouca idade, fortes vestígios em sua personalidade lembram, sobretudo, o amável acolhimento guaxupeano.

Ao convidá-lo a conceder esta entrevista, não teve como não me apaixonar por ele assim como acontece com todos que com ele convivem. Constatei que Amir Haddad não apenas conquista admiradores, mas arrebata corações com sua flexibilidade e poder de compreensão quando a verdade lhe é dita. Segundo diz: “Só a verdade salva.” Assim, encorajou-me a citar-lhe uma das minhas verdades: “Amir, eu amo você.”

 

Você chegou ao mundo em 1937, tempos de absoluto conservadorismo na cidade natal, Guaxupé. Haja vista que, naquela época, quem não nascesse no seio de famílias de atores (como exemplo: Bibi Ferreira) ou de artistas circenses, não era estimulado a abraçar o teatro como profissão.  Mesmo assim, você se entregou aos palcos. Como aconteceu?

Nasci em Guaxupé-MG, cresci em Rancharia-SP, amadureci em São Paulo onde o teatro me arrastou e sequestrou. Não havia televisão e o Teatro era a grande mídia da cidade de apenas dois milhões de habitantes. Fui para lá estudar na Faculdade de Direito. No 3º ano, desapontado, abandono a Faculdade e me lanço no Teatro, que só vim a conhecer adolescente em São Paulo. Na Faculdade me encontro com o Zé Celso e o Renato Borghi e outros menos conhecidos, mas não menos importantes, e fundamos o “Oficina”. O resto é de conhecimento público. Só Guaxupé ou Rancharia não teriam me levado ao Teatro. Embora até hoje a mineiridade seja forte em mim (minha família) e o provincianismo interiorano do Oeste de São Paulo. Agradeço aos deuses ter vivido no interior durante a infância e pré-adolescência.

 

A transição do Direito para os tablados pode ser considerada uma façanha em sua vida? Afinal, até os dias atuais, contabiliza-se cerca de 300 espetáculos dirigidos com a maestria que o consagrou como referência das Artes Cênicas, tanto no Brasil quanto no exterior.

Não foi nenhuma façanha, nenhum ato histórico. Foi tão natural quanto crescer, amadurecer, criar barba, bigode, fazer sexo, etc. As dificuldades naturais de um ser humano. Apesar de eu até hoje me espantar da facilidade com que tudo aconteceu.  Nunca fiz outra coisa na vida. Só Teatro. Tudo que sei e sou devo ao Teatro. Aprendi com o Teatro. Meu pai, minha mãe, meu amante, meu eterno companheiro. Minha mulher ‘às vezes’ se queixa, mas me compreende. Meu casamento é longo e duradouro. Sou fiel a ela como sou fiel ao Teatro. Não sou perdulário nem promíscuo. Embora ache o adultério essencial para fortalecer nossas relações. Fiz pouco, mas faço cinema e televisão, para voltar apaixonado aos braços do Teatro.

 

Em abril de 2013, a convite do ator e também guaxupeano Marcos Frota, você esteve em Guaxupé após 70 anos sem visitar a cidade. Ao percorrer ruas do seu passado, quais lembranças fluíram e qual cenário mais lhe arranhou o coração de saudade?

De todos de minha família eu era o único que nunca tinha voltado à terra materna. Voltei a Guaxupé 70 anos depois de ter saído de lá. Com apenas 5 anos de idade. Bem que procurei alguma lembrança forte, mas não havia muitas a não ser imagens de minha infância brincando na porta da casa onde nasci. Isto sim foi forte, visitar a casa onde nasci. Estava lá, inteira! Os moradores me receberam com uma cordialidade típica de Minas Gerais.  Pouco depois, soube que a senhora, dona da casa que me recebeu tão bem e estava doente, veio a falecer. Porém, mais que a casa foi seu quintal que me trouxe mais recordações: suas árvores e seus porões onde as meninas mais velhas (vizinha) nos ensinavam ‘coisas’. No fundo do meu quintal mais tarde se armou o circo onde o Marcos Frota descobriu sua vocação. Acho isso forte! E depois, as homenagens que a cidade me prestou, o encontro com os primos. Gostaria muito de voltar lá e ficar um tempo maior. Guaxupé é um nome que nunca me saiu da cabeça. Apesar de Rancharia também me emocionar.

Na maioria das vezes, mesmo que erroneamente, o teatro no Brasil é apontado como um segmento artístico muito distante do grande público e voltado mais notadamente à categoria de elite intelectual. Porém, seu projeto ‘Tá na Rua’, em ação desde 1980, leva-nos a crer que, já que o público não vai ao teatro, Amir Haddad leva o teatro para as ruas onde a arte dramática realmente nasceu. Descreva-nos essa produção cultural que tanto vem fortalecendo o teatro como legítima arte popular.

O Teatro é e sempre foi uma arte essencialmente popular. Por ser muito atraente e interessante, acaba sempre sendo expropriado pelas elites incapazes de produzir nada novo e importante. Ao sair para as ruas não fui levar ‘Teatro para o povo’. Não sou, não fui, nem nunca serei ‘messiânico’, ‘evangélico’...  O Teatro não era uma ‘boa nova’. Pelo contrário, era uma verdade antiga e ancestral de origem popular apropriada pela burguesia. Mais que levar Teatro ao povo eu fui devolver o povo ao teatro, que eu sentia que era uma arte que estava morrendo e que só o povo, seu público original, poderia salvá-lo. Assim, o Teatro se salva e eu também me salvo por parar de fazer uma arte morta e reencontrar um caminho da história da humanidade fora das ideologias e dominações. O Teatro é filho da história e não da ideologia.

 

O ‘Tá na Rua’ é um espetáculo propositalmente criado na mira da simplicidade e do improviso. O tablado e o cenário são as ruas. Você comanda o elenco com um microfone na mão, atuando não apenas como diretor, mas também como ator. Durante a apresentação, o público une-se aos atores.  O que esse trabalho de integração vem gerando em termos de expressão e enriquecimento cultural não somente para a arte teatral, mas também para a sociedade em seu todo?

Transformando todos os atores em cidadãos e, principalmente, todos os cidadãos em atores. Nós não estamos condenados a sermos só destruidores, consumidores e egoístas como a sociedade nos leva a crer. O ser humano é essencialmente criativo e transformador e não permitir a ele o exercício de sua fertilidade é a maior de todas as perversões. Daí tantas doenças e tanta agressividade. Não se trata somente de todos os atores serem ‘operários’ como queriam os marxistas, mas também de todos os operários serem artistas, como querem os deuses da criatividade. Um novo homem para um novo tempo.

 

Você traçou o ‘Tá na Rua’ sem prazo de permanência. A julgar pela admirável repercussão, o espetáculo jamais terá fim. Porém, há um novo projeto em andamento?

O Teatro é uma eternidade, não tem começo, meio, nem fim, a cobra mordendo o próprio rabo. Você está absolutamente certa. Meu trabalho continua. O Tá Na Rua é uma escola. A Escola Carioca do Teatro Brasileiro, onde coloco à prova minhas idéias, inspirações e intuições. Onde encaminho aqueles que procuram a mim e ao Teatro. Meu projeto mais recente em andamento é a adaptação para o Teatro do ‘Zaratustra’ do Nietzsche junto com meu grupo. 2019 vai ser marcado por este espetáculo, tenho certeza.

 

Redes sociais versus Teatro.  A tenacidade da comunicação virtual vem desestimulando as idas ao teatro e ao cinema, o interesse pelos livros, a apreciação de exposições artísticas e, sobretudo, o convívio social na forma mais direta. Diante dessa inevitável e projetada realidade, há como pessoas criativas como você empenhar-se na geração de um equilíbrio entre o virtual, a vida real e a arte? Ou já será tarde demais?

Nunca será tarde demais. Senão, que sentido teria eu estar nas ruas há 36 anos em contato direto com a população? O Teatro é a possível arte do futuro e a única arma que temos para lutar contra as ‘realidades virtuais’. Embora haja um teatro tão ruim que pode muito bem ser confundido com ‘vídeo tape’ ao vivo. É contra isto que eu luto. A morte no Teatro. Não quero Teatro na minha vida, mas vida no meu Teatro!

 

Além de grande referência artística, você é dotado de uma personalidade marcante.  Se assim não fosse, como manter de pé projetos tão ousados que você vem realizando ao longo do tempo? Afinal, fazer teatro neste país não é uma tarefa fácil, levando-se em conta, principalmente, a falta de patrocínios. Há muitos talentos esquecidos pela mídia e pelo público por não conseguirem se esquivar das dificuldades financeiras em realizar bons espetáculos. Como você vence os vendavais e segue em frente, sempre em frente?

Não existe receita para isso. Você não pode ficar esperando as melhores condições para fazer o que quer. A vida não é assim. Nunca dependi de ninguém para fazer o que faço. Não posso deixar de fazer. Preciso atender ao chamado que sinto vivo e imperioso dentro de mim. A isto se chama liberdade. “Amo por amar, que é liberdade” (Gregório de Mattos)

 

Desde o início como ator, diretor e teatrólogo, você convive com profissionais conceituados no teatro brasileiro como, por exemplo, José Celso Martinez. Há alguém em quem você tenha se espelhado em sua jornada?

Não existem modelos. Não me espelho em ninguém. Apenas faço o que tenho que fazer. O Zé Celso e eu temos a mesma idade, vivemos os mesmos tempos, somos contemporâneos e, no entanto, fazemos teatros completamente diferentes. Todos nós amamos Shakespeare, o Brecht, o Sófocles, o Peter Brooks, etc. Mas não nos espelhamos em ninguém. Detesto quando vejo algum diretor de Teatro dizer ser caudatário de alguém. Mesmo que seja de mim ou do José Celso.

 

Assim como nos palcos, você se destaca nas telas. Mas a sétima arte não o envolveu de forma tão vigorosa como o teatro. Qual a posição do cinema em sua vida?

Um adultério eventual, como já disse antes. Como a televisão. A fisicalidade é essencial no meu trabalho.

 

Sendo também professor de teatro, qual a sensação ao ver desenvolver o potencial artístico de um aluno ou, até mesmo, fazer emergir um talento sufocado pela timidez?

Ser professor é parte essencial do meu ofício. Desde meus mais remotos inícios, o aprender em mim esteve relacionado ao ensinar. Quem não ensina não aprende. Quem não aprende não ensina.

Tudo que sei quero partilhar com os outros. Não guardo nada, nem quero guardar. Dividir saber é conceder poder. Concentrar saber é concentrar poder.

Meu teatro discute o tempo todo as relações de poder que se estabelecem entre os seres humanos dentro e fora do espetáculo.

Cada ator que aprende comigo, espero que se transforme num cidadão útil, e não num ser egótico e vaidoso. Não me orgulho de minhas ‘criaturas’, encanto-me com os cidadãos de primeira classe que meu magistério/ofício pode gerar.

 

Afinal de contas, o que é ‘talento’?

O teatro tem o dom de descortinar olhos turvados pelas pressões sociais. Sim, a arte dramática não apenas fascina, mas liberta, alimenta a consciência e integra o homem ao mundo e consigo mesmo. Portanto, não seria o teatro uma escola que todos deveriam frequentar como grande fonte de aprendizado e crescimento interior?

Acho que todas as minhas respostas até aqui coincidem com as afirmações que você faz em sua pergunta. O Teatro deveria fazer parte do currículo de qualquer escola.

 

Das obras teatrais antigas às contemporâneas, sua direção artística é impecável dando aos espetáculos um aprimoramento de mestre. Artistas de várias gerações consideram que ser dirigido por Amir Haddad é emblema de consagração profissional. De onde vem tanta inspiração para liderar, conduzir e envolver elencos inteiros em sua sintonia calma, abrangente e seguramente resoluta?

Quem sabe? Uma coisa é certa: eu amo o que faço. E outra coisa é mais certa ainda: eu amo as pessoas que trabalham comigo. E mais ainda, amo as pessoas em geral. Acredito no ser humano e não acredito que Deus possa ter errado tanto como dizem por aí. Não sou ingênuo, nem tolo, nem samaritano. Acho o ser humano a melhor coisa da criação. “A única coisa que ele resolve mal é sua relação com o próximo”. (Sófocles) Mas resolver esta questão é nossa tarefa. Para isso o Teatro.

 

Será que é tudo um ato de amor?

Uma pergunta de aparente caráter subjetivo: Seria a arte dramática a fonte da eterna juventude? Refiro-me, obviamente, aos seus adoráveis 81 anos. Da eterna não sei. Mas da juventude sim. O Teatro se rejuvenesce e revitaliza a cada momento. Você só pode fazer Teatro com seus melhores e mais vivos sentimentos.

O Teatro, como a verdade, salva...

Só o Teatro Salva!!

Só a Verdade Salva!!!

Abraços,

Amir Haddad

 

Amir Haddad

 

 

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