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Meíta Bardi, colunista

meitabardi@yahoo.com.br

MARCELO ZAIAT

Há aproximadamente 10 anos, ao passar um fim de semana em Guaxupé, saí para caminhar sozinho em uma manhã fria de domingo. Estava decidido a andar sem rumo, aonde o vento me levasse. Queria revisitar alguns cantos de minha cidade, alguns que povoavam minha memória distante e que nem sabia mais se existiam ou se eram exatamente como me lembrava. Andei despreocupado e sem prestar atenção no caminho que fazia, mas atento aos detalhes, como os paralelepípedos alinhados em alguns trechos e incertos e desnivelados em outros que, em minha opinião, trazem um toque todo especial para a paisagem urbana e embelezam as ruas.

Foi nesse andar errático e aleatório, entre calçamentos, casas e poucas pessoas que, sem me dar conta, me vi diante de um portal que para mim representava grande parte da memória que tenho da infância. Com o vento a balançar os bambuzais, me encontrei defronte ao Estádio Municipal Dr. Carlos Costa Monteiro. O vento me levou, talvez, onde quisesse realmente ir sem me dar conta. Atravessei o portal, que para mim parecia imenso na infância, e caminhei até a arquibancada coberta e me sentei no terceiro ou quarto lance dos degraus de concreto. Sentei, olhei atentamente cada detalhe daquele que foi um dos locais que mais gostava de frequentar em minha infância. Senti os cheiros, os mesmos que lembrava sentir em dias de jogos da Esportiva: de laranja, pipoca e amendoim. Ouvi os sons e confesso que chorei. Chorei muito como faço agora ao escrever essas linhas que buscam revisitar um pouco minha história, minha origem. Um choro de saudade, de felicidade e, por que não, um pouco de tristeza também.  Saudade de um tempo em que estava me moldando como ser e que aquele local, muito menor e mais simples do que a memória me fazia crer, me trazia de forma mágica em sons, cheiros e sentimentos.

Começo esse texto com essa lembrança apenas para deixar claro que minha relação com Guaxupé vai muito além de ter nascido em suas terras, em seus limites geográficos. Minha relação com a cidade é de sentimento profundo e de pertencimento àquele espaço-tempo.

Nasci em maio de 1967 e cresci na rua. Sim, minha geração cresceu e se criou na rua e na escola - e isso era muito normal. Era a época. A rua era extensão das casas, nosso quintal de brincar, além dos belos e deliciosos quintais das casas. E nesse grande quintal, ruas, casas, comércios, terrenos baldios eram nosso universo. Minha infância foi na Rua Aparecida e suas imediações, seus quintais, como as praças das Igrejas de Nossa Senhora Aparecida e do Rosário, a Travessa Valeriano José da Silva, a Rua da Cadeia, a do Buracão, a Tiradentes, o pátio da Igreja Síria, o “pastinho”, terreno de jogar bola, comer manga e brincar de tudo.

Minha primeira escola foi o Colégio das Freiras, onde fiz o jardim e o pré (aqui não usarei terminologias modernas das séries escolares, mas as que usávamos e que ainda uso). Sempre me lembro dessa escola como um gigantesco espaço e talvez seja realmente o único espaço de infância que minha memória não me engana porque é realmente um local amplo. Depois estudei no querido Grupo Escolar Barão de Guaxupé, com sua diversidade social, seu pátio/quintal encantador e sua separação absurda entre meninos e meninas no recreio. Dali fui para o Ginásio, onde passei a maior parte de minha vida escolar, da quinta série ao terceiro colegial, e de onde trago as maiores marcas na minha formação acadêmica.

Foram anos de vida intensiva nessa cidade, entre ruas, casas, escolas, a Piscina (o clube), o Clube Guaxupé, o Clube de Campo, a Mogiana. A cidade era nossa casa. Os botecos inesquecíveis, os carnavais espetaculares, o querido Yskulaxado, os Bicancas, o Feijão, os porres homéricos, as grandes amizades, a atuação no Grêmio Estudantil (Integração). Tudo isso trago não só na memória, mas impregnado em meu ser.

Nasci e sempre vivi na mesma casa, Rua Aparecida, 101, entre quatro mulheres - três delas professoras. Creio que ali estava selado meu destino de professor/educador. Ali estava o alicerce que me levaria a construir uma identidade e desse universo de mãe, tias, tios, primos, primas, amigos, amigas, todos no mesmo e grande quintal trago a essência do que hoje sou. E foi desse mundo acolhedor e acalentador, de carinho de mãe a amizades de laços fortes que me lancei ao mundo aos 17 anos. Escolhi a Engenharia, embora já soubesse (hoje eu sei conscientemente) que queria mesmo era ser professor e cientista (ainda tinha uma visão bem romântica da profissão). Comecei os estudos no Rio e depois aportei em São Carlos, interior de São Paulo, em 1986, onde vivo até hoje. Da engenharia química, fui ao mestrado, doutorado, pós-doutorado; caminho obrigatório para quem quer seguir carreira acadêmica. E, finalmente, me tornei professor de gente grande, e pesquisador, o nome menos romântico para o cientista que já pensava ser quando na infância fazia os primeiros experimentos.

Guaxupé me deu o alicerce, a estrutura e meus fundamentos de viver. Guaxupé me deu muito mais. Foi nesse cantinho de Minas que estabeleci grandes amizades, que conheci minha companheira de vida e onde nasceu meu filho que, embora não tenha vivido na cidade, traz o sopro inicial em suas veias. Sou grato a essa terra e suas gentes, aos amigos de vida, aos tios, tias, irmãos e irmãs (formalmente primos e primas) e à minha mãe, impulso de vida inicial e primordial. Trago em mim uma pequena parte de cada um e guardo todos e todas em meu coração, assim como trago Guaxupé comigo em um cantinho bem especial e aconchegante da memória.

 

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